Terra de extremos
Conto de Ana Valéria Sessa
Um deserto infindo, Saaras e Kalaharis, planícies cobertas de sal e uma tempestade de vento que só presta pra cegar os olhos. Um sol sem misericórdia. Quem já atravessou um, sabe, e mesmo certo de onde está, porque esperança é um hábito, você olha para o céu, para certificar-se de novo e de novo que nenhuma chuva vem, inconsolável e paradoxalmente resignado pela necessidade de sobreviver. Semanas caminhando calado. Chegou a amaldiçoar todos os canalhas ocidentais que fizeram daquele inferno na terra um amontoado de estórias românticas num oriente distante.
As vezes, avistava um tuareg que em árabe quer dizer: “abandonado pelos deuses”
embora esse povo nômade chame a si mesmo de “homens livres” mas esses, pouco
falam, já tão acostumados a solidão daquelas paragens. Morrendo de sede e
exaustão, começou a ter miragens. Via lagos cristalinos, pegava um pouco de
água para pôr na boca na esperança de matar sôfrega e rapidamente o que o
matava aos poucos, mas de súbito, a água se transformava em areia.
Começou a compreender a mística daquela paisagem de exorcizar demônios e todos
que nele habitavam, ele matou, um a um, sem nenhum temor porque isso também se
perde - a terrível força do medo que imobiliza. Nas madrugadas estelares
ele sentia seu corpo flutuar, seu raciocínio era estranho, primitivamente
pensava em círculos, como cíclica é a natureza. Súcubos vorazes o visitavam em
sonhos, mulheres incandescentes o seduziam para depois, apavora-lo com línguas
de serpente e ele derramava seu semên na areia. Pensou na única mulher que, de
fato, amou terna e intensamente e todos os momentos em que viveram
juntos, mas ela partira e até esse sentimento de rejeição e dor parecia agora,
acolhedor.
Tudo isso é passível de acontecer nesses lugares porque nenhuma alma viva
distrai o olhar e tudo o que resta à noite é o céu a ser contemplado como uma
mandala de azul intenso salpicada de prata.
Depois de atravessar léguas e léguas sem fim, ele percebeu que já não existia,
mas apenas o deserto. Agora, ele era areia infinita estendendo-se como um
cordão que quase arrebentava entre dois hemisférios tão distintos e no entanto
tão próximos: metafísica e fome, frio e calor. Ele era história calada e
inscrita, vertida, mil vezes morta, renascendo de partos, alegria e dor em cada
grão, puro nomadismo azul tremulando no véu dos tuaregues, imensidão de dunas
que ondulavam lembrando o mar. O vento varria seu corpo e mil e uma noites
o refrescavam para aquece-lo à cinqüenta graus no dia seguinte. Ele era terra
de extremos e cada rachadura em sua pele ardia. Passava a língua seca nos
lábios e imaginando-se um deserto podia sentir o frescor do Nilo e do Rio
Amarelo em suas fendas. Graças a essa sensação já não fazia sentido morrer. Homens morrem, desertos não - ele pensava e repetia isso como uma ladainha circular, um amuleto
contra a morte, quando, de repente avistou um oásis. Levou alguns segundos para
registrar tal maravilha em suas retinas, já secas e queimadas pelo sol. Chegou,
mesmo a pensar que algum velho demônio, o mais pérfido e cáustico, tinha
sobrevivido só para aterroriza-lo até a morte, mas aquela ilha de vida
exuberante nada tinha a ver com deuses e demônios. Era sua própria reserva de
água e comida, seu sustento brotando de sua natureza, fonte subterrânea de água
pura, jorrando na areia seca, vinda de uma profundidade enorme até romper a
aridez que segundos atrás era impiedosa, cruel e no entanto, tão somente vida,
sem dizer muito à que veio. Já não conseguia lembrar também quanto tempo havia
passado - meses, semanas, minutos... e que importância tinha o deserto de
uma alma ou a morte de um homem? O mundo morreu tantas vezes em genocídios
silenciosos!
Ele descobrira o caminho de suas veias e aqueles eram os seus poderes.
Filosofia ou sede, a única coisa que importava é que a temporada no inferno terminara.
Ele estava vivo em seu próprio oásis e dessa vez, não era miragem.
Ana Valéria Sessa
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