A SOMBRA RASTEJANTE

Conto de R. S. de Farias

Ilustração gerada por inteligĂȘncia artificial



Eu vi o horror. Ele Ă© negro e medonho, viscoso e imundo. Rasteja ligeiro nas sombras da noite. É uma coisa Ă­mpia e inĂ­qua, uma blasfĂȘmia viva e sĂłrdida, aterrorizante, uma entidade demonĂ­aca nĂŁo deste mundo, mas das mĂșltiplas cloacas purulentas das profundezas do inferno;  uma vida atemporal banida, exilada na Terra, coexistindo conosco, agora e para todo o sempre, aqui, nesta esfera insana onde nĂłs, tolos mortais, padecemos na misĂ©ria do nada de nossa triste condição humana.

Senhores sou um pobre miserĂĄvel e desgraçado por ter o dom de ver coisas que perambulam na escuridĂŁo maldita da noite. Ter essa estranha faculdade, essa clarividĂȘncia lancinante, me faz sofrer; destarte, desejo morrer o quanto antes.

Rezo a Deus toda noite para que me mate o quanto antes, me liberte dos grilhĂ”es obscenos da clarividĂȘncia contumaz, deste fardo sinistro e pungente que se tornou minha vida.

Mas se Deus não atender minhas preces, então que vå para o inferno! A corda ao redor do meu pescoço aliviar-me-å deste destino maldito, deste suplício, deste anåtema insuportåvel e indizível.

E tudo começou com meus estudos inauditos e proibidos. Debruçado sobre tomos e brochuras antigas, onde o conhecimento oculto milenar era revelado em pĂĄginas profanas, mofadas e Ă­mpias. Todo o conhecimento pagĂŁo condensado naqueles livros medonhos, abertos Ă  minha mente excĂȘntrica e inquieta!

Sou o Ășltimo de uma famĂ­lia arruinada, amaldiçoada pela misĂ©ria e pelo infortĂșnio. Meu pendor para as Artes me levou para a pintura e a poesia. Fui um fracasso total em ambas. Meus quadros, num estilo bizarro e grotesco, jamais consegui vendĂȘ-los; minha poesia nunca foi aceita e publicada: meus versos falavam do medo, do terror que antecede a hora do sono, do outro lado da meia-noite, dos demĂŽnios que rastejam na penumbra das madrugadas, nas catacumbas da loucura.

No amor tambĂ©m tive decepçÔes. Casei-me tarde: eu tinha 38 anos quando conheci Valna. Uma musa que durante dois belos anos me fizera conhecer os sĂłis balsĂąmicos do carinho, da amizade, da ternura. Juntos passeĂĄvamos de mĂŁos dadas pelo bosque atrĂĄs do velho sobrado que eu herdara de meu pai, Edgar Howard Bierce, que  se suicidara ainda quando eu era pequeno, ao saber que minha mĂŁe o traĂ­a.

Os raros e poucos anos de felicidade que tive foram ao lado de Valna. Seu sorriso era algo mågico, encantador. Seus cabelos lembravam a cor do ouro. Seus olhos também sorriam e me transmitiam um amor cùndido, puro, sacrossanto. E seus låbios eram os frutos rubros do paraíso dos prazeres eróticos.

Nos troncos dos salgueiros, Ă  beira do lago plĂĄcido atrĂĄs de nossa casa, eu escrevera, na primavera do meu amor, com a ponta de um canivete, juras de amor eterno Ă  bela Valna. PassĂĄvamos os dias ali, entregues a um namoro que prometia ser eterno, mesmo no casamento. Foram os dias mais felizes de minha vida. A beleza fĂ­sica de Valna era tĂŁo divina quanto a beleza de seu carĂĄter e de sua alma juvenil.

Foi no fim do Outono de 1975 que Valna adoeceu. Um mal terrível. Incuråvel. Todos os tratamentos foram feitos, até que o médico a desenganou. Mandara Valna morrer em casa, ao meu lado, como ela queria.

Nessa Ă©poca, a aparĂȘncia de Valna tinha sofrido uma grotesca metamorfose. Outrora bela e viçosa, agora ela estava magra, lĂ­vida, os olhos tristes. Devido Ă  doença e os tratamentos, seus cabelos haviam caĂ­do, deixando a cabeleira curta e rala. Seu modo de vestir-se tambĂ©m mudara: outrora, ela vestia-se com roupas alegres e coloridas, mas agora ela passara a trajar-se com vestidos negros que contrastavam com sua pele muito branca.

Logo a morte levou para sempre o meu amor; Valna morreu no crepĂșsculo de um dia frio, em meados de junho.

Revoltado contra todos os deuses que regem o destino dos homens, passei a praticar a magia negra.

Muitas noites, no cemitério, em ravinas sombrias ou em pùntanos grotescos, tentei evocar a alma de Valna, mas do reino dos mortos só surgiam efígies falsas, sombras ou simulacros do espírito de minha amada. Logo percebi ser impossível chamar alguém que, por certo, alcançara o nirvana.

Ainda mais rebelde e desgostoso com meu destino, passei a invocar entidades tenebrosas, com o escopo esdrĂșxulo de zombar dos deuses das Leis CĂłsmicas que me impuseram tanto infortĂșnio, na vida e no amor.

Certa noite, num bosque escuro, invoquei, atravĂ©s do OpĂșsculo de Zerbetreon, um formulĂĄrio de teurgia negra, aquele horror blasfemo e atemorizante, uma sombra, uma sombra negra, fria como uma lesma de um pĂąntano do inferno.

E agora, hoje, passadas duas horas desta invocação maldita, eis-me aqui, na choupana abandonada, rabiscando neste diårio tudo o que fiz e tudo o que aconteceu comigo.

Corri para cå, porque a sombra rastejante me persegue, a sombra maldita que eu invoquei dos mundos além da tumba!

A porta!...A porta... Vejo pelas frestas... Uma sombra... É ela! Ela veio! A sombra sinistra do AlĂ©m, a entidade tenebrosa das dimensĂ”es infernais... Ela rasteja, posso ouvir... Posso sentir o frio emanado de sua carne astral-etĂ©rica de trevas.

Deus me perdoe! Deus me ajude!...

Oh, meu Deus! A sombra! A sombra veio para me matar, pois eu a tirei de seu mundo, nas vastidÔes escuras do reino assombroso de Hades!

FIM

 

 


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