“Ele, Antarion, um famoso poeta do país de Charmalos, no antigo mundo que era conhecido por suas gentes vivas como Phandiom, partira numa breve viagem ao reino vizinho. Durante o curso desta viagem, tivera um sonho deprimente — o sonho de uma vida aborrecida, inútil, como a de um tal Francis Melchior, numa espécie de planeta o mais raro e desagradável, que estava em alguma parte pelo outro extremo do universo. Era incapaz de recordar com exatidão quando e como tivera este sonho; e tampouco sabia quanto havia durado; mas, em qualquer caso, estava contente de haver-se liberado dele, e contente de aproximar-se agora de sua cidade nativa de Saddoth, onde habitava, em seu obscuro e esplêndido palácio de éons anteriores, a bela Thameera, a quem ele amava.”
O planeta dos mortos (The Planet of the Dead) é um relato de ficção especulativa do escritor norte-americano Clark Ashton Smith (1893–1961), publicado originalmente na edição de março de 1932 da revista Weird Tales .
Além de estar inspirado em Desde as criptas da memória (From the Crypts of Memory), O planeta dos mortos explora o tema da projeção astral como método para atravessar as incomensuráveis distâncias cósmicas. Nesse sentido, é justo classificar este requintado conto de Clark Ashton Smith entre os primeiros a utilizar com eficácia o recurso da viagem astral ou experiência fora do corpo.
O planeta dos mortos
The Planet of the Dead, Clark Ashton Smith (1893–1961)
Tradução e pós-edição: Rogério S. de Farias, auxiliado por tradução automática e IAs
Ilustrações: Layout e Engenharia de Prompt: Rogério S. de Farias - Arte-final: IA

De profissão, Francis Melchior era antiquário; por vocação, astrônomo. Dessa maneira, esforçava-se por acalmar — se não por satisfazer — duas necessidades de um temperamento complexo e raro. Por meio de seu ofício, gratificava, até certo ponto, sua ânsia por todas as coisas que tivessem estado submersas sob as sombras funerárias de eras mortas, nas chamas de âmbar escuro de sóis que há muito se haviam posto; por todas as coisas que trazem em torno de si o mistério irresolúvel do tempo pretérito.
E, por meio de sua vocação, encontrou um caminho desimpedido para reinos exóticos no espaço exterior, para as únicas esferas nas quais sua imaginação podia vagar em liberdade e seus sonhos podiam ser satisfeitos. Porque Melchior era um daqueles que nasceram com um asco incurável a tudo o que é atual ou próximo, um daqueles que beberam pouco demais do esquecimento e não esqueceram por completo as glórias transcendentes de outras épocas e os mundos dos quais foram exilados por seu nascimento humano; de modo que seus pensamentos, furtivos e incansáveis, e seus anseios, vagos e insaciáveis, voltam obscuramente às costas desaparecidas de uma herança perdida.
Para alguém assim, a Terra é estreita demais, e a extensão do tempo dos mortais, breve demais; e a pobreza e a esterilidade estão por toda parte; e por toda parte é seu destino uma fadiga infinita. Com uma predisposição que de ordinário resulta tão fatal para as faculdades de fazer negócios, era verdadeiramente notável que Francis Melchior tivesse prosperado absolutamente nos seus. Seu amor pelas coisas antigas — pelos jarros raros, quadros, mobiliário, joias, ídolos e estátuas — fazia-o estar mais disposto a comprar do que a vender; e suas vendas eram muitas vezes uma fonte de dor e arrependimentos secretos.
Mas, de alguma maneira, apesar de tudo, conseguira adquirir certo grau de comodidade material. Por natureza, tinha algo de solitário e era geralmente considerado um excêntrico. Nunca se preocupara em casar; não tivera amigos íntimos, e lhe faltavam muitas das inquietações que, aos olhos do homem da rua, se supõe caracterizarem um ser humano normal.
A paixão de Melchior pelas antiguidades e sua afeição pelas estrelas procediam ambas dos dias de sua infância. Agora, ao completar trinta e um anos, com um desafogo e uma prosperidade crescentes, havia convertido o balcão superior de sua casa isolada nos arredores — que se erguia no alto de uma colina — num observatório amador. Ali, com um novo e poderoso telescópio, estudava os céus de primaveris noite após noite. Possuía escasso talento e pouca afeição por aquelas recônditas equações matemáticas que formam uma parte tão importante da astronomia ortodoxa; mas tinha uma compreensão intuitiva das imensas extensões estelares, uma sensibilidade mística para tudo aquilo que se encontre no espaço exterior.
Sua imaginação vagabundeava e se aventurava entre os sóis e as nebulosas; e, para ele, cada mínimo brilho no telescópio parecia contar sua própria história e convidá-lo a seu próprio reino de fantasia ultramundana. Não estava especialmente preocupado com os nomes que os astrônomos davam a cada estrela e a cada constelação; mas, de todo modo, cada uma delas possuía para ele uma identidade individual que não podia confundir-se com a de nenhuma outra.
Em particular, Melchior sentia-se atraído por uma diminuta estrela numa extensa constelação ao sul da Via Láctea. Quase não se distinguia a olho nu; e, mesmo por seu telescópio, dava a impressão de uma solidão e um afastamento cósmicos como não havia sentido ante outro orbe. Atraía-o mais do que os planetas rodeados de luas ou as estrelas de primeira magnitude com suas auréolas espectrais e ardentes; e voltava a ela uma e outra vez, abandonando, por aquele solitário ponto de luz, a maravilha dos múltiplos anéis de Saturno, a zona nublada de Vênus e os intrincados anéis da grande nebulosa de Andrômeda.
Meditando durante muitas meias-noites sobre a atração que a estrela exercia sobre ele, Melchior raciocinou que seu estreito raio era a emanação completa de um sol e, talvez, de um sistema planetário; que o segredo de mundos estranhos — e talvez até algo de sua história — estava implícito naquela luz, se tão-somente alguém fosse capaz de ler a história. E desejava compreender e conhecer o delicado fio de afinidade que o atraía irresistivelmente para aquele mundo em especial.Em cada ocasião em que olhava, seu cérebro era tentado por obscuras pistas de uma beleza e de maravilhas que estavam ainda um pouco além de suas mais ousadas fantasias, de seus sonhos mais incontrolados.
E, cada vez, parecia-lhe que estavam um pouco mais perto e mais acessíveis do que antes. E uma estranha e indeterminada expectativa começou a misturar-se à ânsia que impelia suas visitas de cada noite ao balcão. Certa meia-noite, quando estava olhando através do telescópio, pareceu-lhe que a estrela era um pouco maior e mais brilhante do que o habitual. Incapaz de explicar isso, olhou-a mais fixamente do que nunca, sentindo uma emoção crescente, e foi repentinamente capturado pela ideia antinatural de que estava olhando para baixo, para um abismo extenso e vertiginoso, e não para cima, para os céus primaveris.
Sentiu que o balcão já não estava sob seus pés, mas que, de algum modo, se havia virado; e então, de repente, estava caindo diretamente sobre o éter, com um milhão de trovões e de chamas em torno de si e atrás de si. Durante um breve instante, ainda lhe pareceu ver a estrela que estava olhando, longe, no terrível vazio de escuridão espantosa; e então a esqueceu e já não pôde encontrá-la.
Houve a vertigem de uma descida incalculável, e uma torrente de vertigem, de velocidade sempre crescente, que não podia ser suportado; e, transcorridos momentos ou éons (não podia dizer o quê), os trovões e as chamas se apagaram numa escuridão definitiva, num total silêncio; e ele já não soube que estava caindo, e já não reteve nenhum tipo de inteligência.
Quando Melchior recuperou o sentido, seu primeiro impulso foi segurar o braço da poltrona na qual estivera sentado sob o telescópio. Era o movimento involuntário de alguém que caíra no sono e acordava de súbito. No momento, deu-se conta do absurdo de semelhante impulso; porque não estava sentado sobre uma cadeira de forma alguma; e seus contornos não tinham a menor semelhança com o balcão noturno no qual fora capturado por aquela estranha vertigem e do qual lhe parecera cair e perder-se. Estava de pé sobre uma estrada pavimentada com blocos ciclópicos de pedra cinzenta, uma estrada que se estendia interminavelmente diante dele, adentrando as perspectivas indefinidas de um mundo inconcebível.
Ao longo da estrada, havia árvores baixas de aspecto fúnebre, com folhagem de uma cor triste e frutas de um violeta macabro; e, além das árvores, havia uma fila de obeliscos monumentais, de terraços e de cúpulas, de colossais edifícios multiformes, que se erguiam na distância em perspectivas infinitas e incontáveis, rumo a um horizonte indefinido. Sobre tudo isso, desde um apogeu ébano-púrpura, caíam os raios, intensos e opacos, da iluminação de um sol vermelho como o sangue.
As formas e as proporções da labiríntica massa de edifícios eram distintas de quaisquer que houvessem sido desenhadas em arquiteturas terrestres; e, durante um instante, Melchior sentiu-se subjugado por seu número e tamanho, ante sua monstruosidade e raridade. Então, enquanto olhava mais uma vez, já não eram monstruosos nem raros; e os reconheceu como o que eram, e reconheceu o mundo que percorria nesta estrada sobre a qual se encontravam seus pés, e o ponto de destino ao qual devia dirigir-se, e o papel que estava destinado a representar. Tudo isso regressou a ele tão inevitavelmente como os verdadeiros fatos e motivos da vida regressam a alguém que se entregou, esquecendo-se de tudo, representando um papel dramático alheio à sua verdadeira identidade.
Os incidentes de sua vida como Francis Melchior, embora ainda os recordasse, haviam-se tornado obscuros, sem sentido e grotescos, em seu novo despertar para um estado mais pleno de entidade, com todas as suas consequências de memórias recobradas, de emoções e sensações ressuscitadas. Não havia raridade, somente a familiaridade de um regresso a casa, no fato de que passara a outra modalidade do ser, com seu próprio entorno, seu próprio passado, presente e futuro, todos os quais teriam resultado inconcebivelmente estranhos ao astrônomo amador que, uns momentos antes, olhara uma diminuta estrela afastada no espaço sideral.
— Por certo que sou Antarion — murmurou —. Quem, senão, poderia eu ser?
O idioma de seu pensamento não era o inglês, nem nenhum outro idioma da Terra; mas não ficou surpreso por seu conhecimento deste idioma; nem tampouco ficou surpreso quando viu que estava ataviado com um roupão de cor vermelha como um vaga-lume, de uma moda desconhecida em nenhum povo nem época humanos. Esta vestimenta, e certas diferenças de sua personalidade física que lhe teriam parecido bastante raras um pouco antes, eram exatamente como ele esperava que fossem. Dedicou-lhes tão-somente um olhar casual, enquanto repassava em sua mente as circunstâncias da vida que agora reiniciara.
Ele, Antarion, um famoso poeta do país de Charmalos, no antigo mundo que era conhecido por suas gentes vivas como Phandiom, partira numa breve viagem ao reino vizinho. Durante o curso desta viagem, tivera um sonho deprimente — o sonho de uma vida aborrecida, inútil, como a de um tal Francis Melchior, numa espécie de planeta o mais raro e desagradável, que estava em alguma parte pelo outro extremo do universo. Era incapaz de recordar com exatidão quando e como tivera este sonho; e tampouco sabia quanto havia durado; mas, em qualquer caso, estava contente de haver-se liberado dele, e contente de aproximar-se agora de sua cidade nativa de Saddoth, onde habitava, em seu obscuro e esplêndido palácio de éons anteriores, a bela Thameera, a quem ele amava.
Agora, mais uma vez, depois da obscura névoa daquele sonho, sua mente estava cheia da sabedoria de Saddoth; e seu coração estava iluminado por um milhar de memórias de Thameera; e estava obscurecido às vezes por uma velha ansiedade relativa a ela.
Não sem razão, Melchior estivera fascinado pelas coisas que são antigas ou que se encontram longe. Porque o mundo no qual caminhava como Antarion era inconcebivelmente antigo, e as épocas de sua história eram demasiadas para recordá-las; e os elevados obeliscos e grandes edifícios ao longo da estrada eram as elevadas tumbas, os orgulhosos monumentos de antiguidade imemorial, que haviam chegado a ultrapassar em número infinito os vivos. Com mais pompa do que os reis terrestres, estavam os mortos sepultados em Phandiom; e suas cidades se erguiam insuperáveis em sua extensão, com ruas intermináveis e prodigiosos cataventos, por cima das moradas menores nas quais habitavam os vivos.
E, através de Phandiom, os anos passados eram uma presença tangível, um ar que envolvia tudo; e o povo estava submerso na escuridão crepuscular da antiguidade; e eram sábios com todo tipo de sabedoria acumulada; e eram sutis na prática de estranhos refinamentos, de eruditas perversões, de tudo o que pode envolver, com hábil opulência, variedade e graça, o nu e tosco cadáver da vida, ou ocultar, da visão dos mortais, o crânio zombeteiro da mente. E ali em Saddoth, mais além das cúpulas, dos terraços e das colunas da enorme necrópole, como um jardim necromântico na qual os lírios voltam a viver, florescia a extraordinária e triste beleza de Thameera.
Melchior, em sua consciência como o poeta Antarion, era incapaz de recordar um tempo em que não houvesse amado Thameera. Ela fora uma paixão ardente, um requintado ideal, uma delícia misteriosa e uma melancolia enigmática. Ele a adorara implicitamente ao longo de todas as mudanças lunares de seus estados de ânimo, em sua petulância infantil, sua ternura maternal ou apaixonada, seu silêncio sibilino, seus caprichos travessos ou macabros; e sobretudo, talvez, nas escuras tristezas e nos terrores que a dominavam de quando em quando. Ele e ela eram os últimos representantes de nobres e antigas famílias, cujas linhagens incalculáveis se perdiam na multidão dos ciclos negros de Phandiom. Como todos os demais de sua raça, estavam imbuídos da herança de uma cultura complexa e decadente; e as sombras, que nunca se levantavam, da necrópole haviam caído sobre eles desde o nascimento.
Na vida de Phandiom, em sua atmosfera de um tempo antigo, de uma arte desenvolvida durante éons, de um epicurismo consumado e já um pouco moribundo, Antarion encontrara amplas satisfações para todos os instintos de seu ser. Vivera como um sibarita do intelecto; e, em virtude de um vigor meio primitivo, não caíra ainda na tristeza e desolação espirituais, o temido e implacável tédio da senilidade da raça, que marcava a tantos dentre seus semelhantes.
Thameera era ainda mais sensível e mais visionária por sua natureza; e a ela pertencia o refinamento definitivo que está próximo da decadência outonal. As influências do passado, que eram uma fonte de prazer poético para Antarion, produziam em seus delicados nervos dor e languidez, horror e opressão. O palácio no qual ela vivia e as próprias ruas de Saddoth estavam cheios de eflúvios que emanavam dos poços sepulcrais da morte; e o esgotamento dos mortos inumeráveis estava por toda parte; e uma presença, maligna ou opiácea, se arrastava desde as criptas dos mausoléus, para esmagá-la ou afogá-la com suas asas sem forma. Somente entre os braços de Antarion conseguia escapar disso; e somente com seus beijos conseguia esquecê-la.
Agora, depois de sua viagem (cuja razão não lograva recordar) e depois daquele curioso sonho em que se imaginara ser Francis Melchior, Antarion foi de novo admitido à presença de Thameera por escravos que se mostravam invariavelmente discretos ao carecer de língua. Sob a luz oblíqua das janelas de berilo e topázio, na escuridão malva e carmesim das pesadas tapeçarias, sobre um piso de maravilhosos mosaicos realizados em ciclos anteriores, avançou languidamente para recebê-lo. Era mais bela do que suas recordações, e mais pálida do que as flores das catacumbas. Era estranhamente frágil, voluptuosamente orgulhosa, com cabelos de um ouro lunar e olhos de um marrom noturno que estavam salpicados de estrelas móveis e rodeados pelas pérolas escuras das noites sem sono. A beleza, o amor e a tristeza, ela os exalava como um múltiplo perfume.
— Alegro-me de que tenhas vindo, Antarion, porque senti tua falta — sua voz era tão delicada como o ar que nasce entre as árvores em flor, e tão melancólica como a música que se recorda.
Antarion ajoelhou-se, mas ela o tomou pela mão e o conduziu até um sofá sob umas cortinas decoradas com intrincadas figuras. Ali, os amantes se olharam mutuamente em meio a um silêncio afetuoso.
— Vai tudo bem contigo, Thameera? — a pergunta estava motivada pela ansiosa intuição do amor.
— Não, tudo não vai bem. Por que te foste? As asas da morte e da escuridão estão pelas ruas, revoluteiam mais perto do que nunca; e sombras mais escuras do que as do passado caíram sobre Saddoth. Houve uma estranha perturbação no aspecto dos céus; e nossos astrônomos, depois de muitos cálculos e estudos, anunciaram a iminente condenação do sol. Não nos resta senão um único mês de luz e de calor, e o sol se desvanecerá dos céus da noite como uma lâmpada que se apaga, e cairá uma noite eterna, e o frio do espaço exterior se arrastará sobre Phandiom. Nosso povo enlouqueceu ante o horror previsto; e alguns se afundaram numa desesperança apática, e outros mais se entregaram a festas frenéticas e a orgias... Onde estiveste, Antarion? Em que sonho te perdeste para poder abandonar-me tanto tempo?
Antarion tentou tranquilizá-la.
— O amor ainda é nosso — disse ele —. E, embora os astrônomos tenham lido os céus corretamente, temos um mês diante de nós, e um mês é muito.
— Sim, mas existem outros perigos, Antarion. O rei Haspa olhou sobre mim com os olhos do desejo senil, e me corteja assiduamente com presentes, promessas e ameaças. É o antojo, repentino e inexorável, da idade e do tédio, o capricho do desespero. Ele é cruel, inflexível e todo-poderoso.
— Levar-te-ei longe — disse Antarion —; escaparemos juntos e habitaremos entre os sepulcros e as ruínas, onde ninguém possa nos encontrar. E o amor e o êxtase florescerão como flores escarlates sob sua sombra; e receberemos a noite infinita um nos braços do outro; e assim conheceremos o máximo dos prazeres mortais.
Sob a negra meia-noite que pendia sobre eles com asas imóveis e colossais, as ruas de Saddoth estavam ardendo com um milhão de luzes amarelas, cinábrio, cobalto e púrpura. Ao longo das amplas avenidas, nos becos profundos como vales, e entrando e saindo dos assombrosos palácios antigos, templos e mansões, se vertiam as grotescas festividades, a tumultuosa diversão de mascarados que durava a noite inteira. Todo o mundo estava fora, desde o rei Haspa e seus magros e sibaríticos cortesãos até os mendigos e os párias mais baixos. Uma multidão de disfarces extravagantes e inauditos, uma mistura de fantasias mais variadas do que as de um sonho do ópio, ia e vinha por toda parte.
Como Thameera dissera, o povo se tornara louco com a ameaça da condenação prevista pelos astrônomos; e buscavam esquecer, num rápido e sempre crescente delírio de todos os sentidos, seu temor ante a noite que se aproximava. Mais tarde, durante a noite, Antarion saiu pela porta traseira da alta e escura mansão de seus ancestrais e abriu caminho por entre o histérico tumulto da gente em direção ao palácio de Thameera. Estava ataviado com roupas de um estilo antiquado, tal como não se vestia havia um punhado de séculos em Phandiom; e toda sua cabeça e seu rosto estavam envolvidos numa máscara pintada, desenhada para representar a peculiar fisionomia de uma raça já extinta.
Ninguém poderia tê-lo reconhecido; e ele, por sua vez, a muitos dos festeiros com os quais se encontrou tampouco poderia tê-los reconhecido, por mais que os conhecesse, porque a maioria deles estava disfarçada com um roupão não menos estrambótico e levava máscaras que eram caprichosas ou absurdas, ou asquerosas ou ridículas além do que cabia imaginar. Havia diabos e imperatrizes e deuses, reis e necromantes das longínquas e insondáveis épocas de Phandiom, monstros de tipo medieval ou pré-histórico, coisas que nunca haviam nascido ou somente haviam sido contempladas na mente de loucos artistas decadentes, buscando superar as anormalidades da natureza. Até da tumba haviam extraído sua inspiração, de múmias amortalhadas, cadáveres mordidos pelos vermes; como mortos que passeavam agora entre os vivos. Todas estas máscaras eram forma oculta para licenças orgiásticas sem precedente ou paralelo.
Todos os preparativos necessários para a fuga de Saddoth haviam sido feitos, e Antarion deixara instruções, minuciosas e cuidadosas, com seus criados a respeito de certas questões essenciais. Conhecia de longa data o temperamento implacável e tirânico de Haspa, sabia que o rei não toleraria oposição alguma à indulgência de qualquer de seus caprichos ou paixões, por mais momentânea que fosse. Não havia tempo a perder na hora de abandonar a cidade junto com Thameera. Chegou por caminhos retorcidos e tortuosos até o jardim atrás do palácio de Thameera. Ali, entre os altos lírios espectrais de cores profundas e cinzentas, as inclinadas árvores fúnebres com suas frutas de sabor sutil e opiáceo, ela o esperava, ataviada com uma roupa cuja antiguidade igualava a da sua, e que não era menos impenetrável para reconhecê-la.
Depois de um breve murmúrio de saudação, saíram juntos do jardim e se uniram à esquecida multidão. Antarion receava que Thameera estivesse vigiada pelos sequazes de Haspa; mas não havia sinais de semelhante vigilância, ninguém à vista que alguém os espreitasse, tão-somente o rápido movimento da sempre cambiante multidão, preocupada com sua busca do prazer. Entre esta multidão, considerou que se encontravam a salvo. Contudo, por causa de umas precauções escrupulosas, permitiram-se ser arrastados durante um momento na corrente da diversão da cidade, antes de buscar a longa avenida arterial que conduzia à saída. Uniram-se ao canto de canções festivas, devolveram as piadas de bacanal que lhes lançavam os transeuntes, beberam os vinhos que lhes ofereceram os portadores de jarros públicos, paravam quando a multidão parava, moviam-se quando a multidão se movia.
Por toda parte, havia chamas que ardiam selvagemente, e a grosseria de vozes elevadas, e o gemido estridente ou o pulsar febril de instrumentos musicais. Havia festejos nas grandes praças, e as portas de casas de antiguidade imemorial vertiam uma torrente de iluminação a todos aqueles que eescolhiam entrar. E, nos enormes templos de éons anteriores, celebravam-se ritos delirantes ante deuses que olhavam, com imutáveis olhos de metal ou pedra, os desesperados céus; e os sacerdotes e os fiéis se drogavam com terríveis opiáceos, e buscavam o êxtase embriagador do abandono a uma histeria tanto carnal como devota.
Por fim, Antarion e Thameera, por etapas que não se notavam, dando muitas voltas e giros, começaram a aproximar-se das portas de Saddoth. Pela primeira vez em sua história, as portas se achavam sem vigilância; porque, em meio à desmoralização geral, as sentinelas se haviam marchado sem temor à detenção ou aos reproches, para unir-se à universal orgia. Ali, no bairro exterior, havia pouca gente, e tão-somente os restos espalhados de festas; e o amplo espaço aberto entre as últimas casas e as muralhas da cidade estava completamente deserto. Ninguém viu os amantes quando se afastaram como sombras evanescentes pelo bocejo triste das portas, e seguiram a estrada cinzenta adentrando a escuridão exterior, atulhada com as indefinidas silhuetas dos mausoléus e dos monumentos.
Ali, as estrelas haviam sido cegadas pelas luzes brilhantes de Saddoth, claramente visíveis no céu. E, no momento em que os dois amantes saíam, as duas pequenas luas cinzentas de Phandiom se levantaram desde atrás das necrópoles e projetaram a desesperada languidez de seus débeis raios sobre as múltiplas cúpulas e minaretes dos mortos. E, sob as luas gêmeas, que extraíam sua luz incerta de um sol agonizante, Antarion e Thameera tiraram as máscaras e se olharam mutuamente no silêncio de um amor inefável, e compartilharam o primeiro beijo de seu mês de definitiva delícia.
Durante dois dias e duas noites, os amantes haviam escapado de Saddoth. Haviam-se ocultado durante o dia entre os mausoléus, haviam viajado na escuridão e sob o brilho duvidoso das luas, sobre estradas que eram pouco utilizadas, dado que se dirigiam tão-somente a cidades abandonadas desde muitas épocas nas regiões exteriores de Charmalos, numa terra cujo mesmo solo fazia longo tempo que ficara esgotado e fora abandonado ao lento avanço do deserto. E agora haviam chegado ao fim de sua viagem, porque, após ascender uma colina baixa e sem árvores, viram, debaixo deles, os arruinados e esquecidos tetos de Urbyzaun, que estivera abandonada desde mil anos; e, mais além dos telhados, o escuro e apagado lago rodeado por colinas nuas desgastadas pelas ondas, que uma vez fora extensão de um grande mar.
Ali, no palácio que se desfazia do imperador Altanoman, cujas altas e tumultuosas glórias eram agora uma lenda que se esquecia, os escravos de Antarion os haviam precedido, trazendo um suprimento de comida e das comodidades e luxos que poderiam necessitar durante o intervalo que precederia ao esquecimento. E ali estavam a salvo de toda perseguição; porque Haspa, sumido na febre e empurrado pelo tédio dos últimos dias, se voltara para a satisfação de algum capricho menos difícil, e já se esquecera de Thameera.
E agora, para estes amantes, começou uma vida que era o epítome breve de toda a delícia e toda a desesperança possíveis. E, o que resultava bastante raro, Thameera perdeu os medos indefinidos que a haviam atormentado, as débeis penas que a haviam obcecado, e era completamente feliz sob as carícias de Antarion. E, tendo em conta que dispunham de tão pouco tempo para expressar seu amor, para compartilhar seus pensamentos, seus sentimentos, suas fantasias, nunca se dizia ou se fazia o bastante entre os dois; e ambos estavam gozosamente satisfeitos. Mas os rápidos dias implacáveis passaram; e, dia após dia, o sol vermelho que dava voltas sobre Phandiom foi obscurecido por uma tintura das sombras vindouras, e um frio se espalhou sobre o tranquilo ar; e os céus calmos, nos quais não se movia nem uma nuvem nem uma rajada de vento ou as asas de um pássaro, eram indicativos da condenação.
E, dia a dia, Antarion e Thameera olharam como se obscurecia o sol desde um terraço arruinado sobre o lago morto; noite após noite, assistiram ao empalidecer das luas fantasmais. E seu amor se converteu numa doçura intolerável, uma coisa demasiado profunda e querida para ser suportada por um coração mortal ou por carne mortal. Misericordiosamente, haviam perdido a conta estrita do tempo, e não sabiam o número de dias que haviam passado, e pensavam que ainda tinham diante de si várias auroras e ocasos de prazer. Estavam deitados juntos num sofá do velho palácio, um sofá de mármore que os escravos haviam semeado com luxuosos tecidos, e estavam repetindo uma e outra vez a ladainha de seu amor, quando o sol foi alcançado ao meio-dia pela condenação que os astrônomos haviam predito; quando um lento crepúsculo encheu o palácio, mais pesado do que a sombra que projeta uma nuvem, e foi seguido por uma onda de repentina escuridão como o ébano, e o frio que se arrasta do espaço exterior.
Os escravos de Antarion gemeram nas trevas; e os amantes souberam que o fim de tudo estava próximo; e se abraçaram um ao outro num prazer desesperado, com rápidos e inumeráveis beijos, e murmuraram o supremo êxtase de sua ternura e de seu desejo; até que o frio que caía desde o infinito se converteu numa agonia crescente, e num misericordioso atordoamento, e depois num esquecimento que tudo alcançava.
Francis Melchior despertou em sua cadeira sob o telescópio. Tremia porque o ar se esfriara; e, ao mover-se, notou que seus membros estavam estranhamente rígidos, como se houvesse estado exposto a um frio mais rigoroso do que o de uma noite de outono. O longo e curioso sonho que tivera era inexprimivelmente real para ele; e os pensamentos, medos, desejos e desesperanças de Antarion ainda seguiam com ele. Mecanicamente, mais do que através de uma renovação de seus impulsos como ser terrestre, fixou seus olhos no telescópio e buscou a estrela que estivera estudando quando a estranha vertigem o invadiu. A configuração do céu quase não mudara , as constelações que a rodeavam estavam altas ao sudoeste; mas, com uma impressão que se converteu em autêntica surpresa, deu-se conta de que a própria estrela desaparecera.
Nunca, embora tenha explorado os céus noite após noite durante a alternância de muitas estações, foi capaz de encontrar o pequeno e distante orbe que o atraiu de uma maneira tão inexplicável e irresistível. Tem uma dupla pena; e, embora se tenha tornado velho e triste com a lentidão dos anos estéreis, com a compra e venda das antiguidades, com o estudo das estrelas, Francis Melchior ainda duvida um pouco sobre qual é o verdadeiro sonho: sua vida na Terra ou seu mês em Phandiom, sob um sol agonizante, quando, como o poeta Antarion, amou a extraordinária e triste beleza de Thameera. E sempre está preocupado por um surdo arrependimento de haver despertado (se despertar é o que foi) da morte que morreu no palácio de Altanoman, com Thameera entre seus braços e os beijos da amada entre seus lábios.
FIM