NO SILÊNCIO DAS ALMAS MORTAS
Por Rogério S. de Farias
Procuro-te, amor, sob as arcadas de ciprestes enlutados,
neste cemitério onde a eternidade apodrece,
e o vento, exangue avantesma, exala teu nome
como um suspiro que não alcançou o céu.
Vago entre os túmulos frios,
onde a pedra chora líquens,
e o musgo engole as últimas palavras
que um dia juramos à lua moribunda.
Aqui jazem as promessas —
putrefatas, quebradiças,
como ossos esquecidos sob a terra molhada.
Eu, espectro de mim mesmo,
alma sem epitáfio,
arrasto meus passos mutilados
como quem arrasta o próprio coração
decomposto pelas garras do tempo.
Perdi-te…
ou foste roubada por essa noiva silenciosa
que atende pelo nome de Morte?
Mas há distinção?
Ambas vestem véus translúcidos de treva,
ambas me sorriem com dentes carcomidos pela ausência.
Teus olhos…
ainda me fitam do fundo do abismo,
e tua voz — agora mineral,
agônica —
ressoa entre raízes que estrangulam os mortos
e florescem em perfumes que apenas os cadáveres aspiram.
Oh! Se a Morte me fosse misericordiosa…
se ao menos me estendesse seu braço esquelético!
Eu repousaria ao teu lado,
em um leito nupcial de pedra fria,
sob a vigília amorosa dos vermes,
e o Nada — doce, absoluto — me envolveria como mortalha.
Mas não.
O Destino, esse carrasco cruel,
condenou-me à insuportável vigília:
caminhar entre epitáfios gélidos,
beijar, com lábios ulcerados de saudade,
o mármore onde teu nome repousa
como um eco petrificado.
E viver…
ah, viver!
Essa maldição viscosa,
como quem já morreu,
mas insiste em sangrar
gota a gota, eternamente,
no silêncio das almas mortas.