Esta é a página de Ficção Especulativa de Rogério S. de Farias - Muito mais que um hobby ou catarse, escrevemos por profissão de fé, por paixão mesmo. Valorizem e reconheçam nosso esforço e dedicação adquirindo nossos livros!...

Deexpergitáre[1]

 

Nota do autor: Este conto é baseado n’um das histórias de H. P. Lovecraft, muito provavelmente provinda d’uma ensandecida visão onírica posta em letras à data de 1934, portanto dois anos antes de seu falecimento, cujo nome “A Coisa no Luar” ainda assombra seu personagem e continuará a assombrar por longo tempo. É noite de 15 de março, e em memória de seus 74 anos de falecimento escrevo este que pode ser considerado uma continuação, ou melhor, uma homenagem ao ídolo e mestre da Literatura de Horror. Recém bateu dez para as oito da noite e não me vejo em condições de não terminá-lo antes de findar as doze badaladas do relógio noturno: antes disso, 23:23 finito.

Leonardo Nunes Nun

 


            Meu instinto dizia que não deveria dormir. Mas o sono reclamava meu corpo com tamanha autoridade que não pude resistir: nem bem desceram minhas pálpebras e as luzes engasgaram, me encontrei n’um mundo estranho, daqueles em que os pesadelos mais insanos mais parecem brincadeiras infantis. Eu nunca acreditei em histórias de lobos farejadores, muito menos na influência da Lua no comportamento humano, embora já tenha estudado síndromes diversas, como a de Pablicto. Eu achava que a licantropia era digna de doentes mentais. Mas ali naquele mundo, ou ao menos aquelas criaturas que eu via, havia muito de selvagens licômanos. De qualquer forma, ou meus olhos me enganavam ou simplesmente os via: face alguma os caracterizavam. Sem falar naquele pântano cuja característica me era asquerosa, mas por demais conhecida.

            Toda noite o sonho se repete. É patente minha permanência neste mundo. E embora eu reze (desde aquela noite), nada é capaz de me tirar destes platôs oníricos. Mas seria a reza a culpada por meu encontro com o habitante deste terrível mundo? Não sei, nem por isso deixei de rezar. Entretanto, mesmo durante o dia, enquanto caminho por entre estes pântanos isolados, a sensação de que a tal sutil e incorpórea emanação não se permite se desgrudar de mim é crescente, e tudo converge para a noite horrível e seus dois seres uivantes e rastejantes, cujas faces cones brancos com tentáculos vermelhos sempre vejo através da janela daqueles vagões de trem.

            Não tenho condições sequer de mensurar quão terrível o ambiente me está sendo, mas parece que reavivam minhas forças a cada principiar de dia para, à noite, esgotá-las n’outra de tantas outras corridas, esbaforido, para fora daquele carro sobre os trilhos pântano adentro, até novamente a exaustão me forçar a parar. O motivo: sempre aquelas criaturas uivantes e rastejantes cujas faces tentáculos vermelhos feito (de) sangue. Repete-se sem nunca mudar. Pântano, sombras, fendas escuras e estreitas, pálido luar, trilhos enferrujados d’uma ferrovia de rua, placas comidas por cupins, carro amarelo cujas inscrições 1852 figuram-se nitidamente em toda repetição, uivos e faces feito cone. Não há um dia em que esta sequência deixa de acontecer.

            E aconteceu novamente. O pântano escuro, provocando talvez o meu acesso de pânico. Juncos atulhados ao chão e vez ou outra neles tropeçando. Um caminhar lento como se fosse a primeira vez naquelas terras. Um céu cinzento d’uma singular primavera sem flores. Um desfiladeiro encapelado de rochas cobertas de líquenes elevando-se a nor-noroeste. E sempre motivado por algo incógnito, vou-me rumo acima a uma fissura aberta naquele gigantesco precipício, de lá notando as imensas bocas negras de muitos buracos terríveis estenderem-se em derredor até as profundas do platô de pedra. Esvaio-me dali com singular presteza.

            A sutil e incorpórea emanação engolia meu cerne sem q’eu pudesse apresentar resistência, e desse nutrir o resultado nada mais é do que o tão corriqueiro medo, de cuja origem nunca me foi possível observar, isso por conta da escuridão grande demais para que eu pudesse perceber a fonte de meu alarme: o pavor me toma por seu. Ali emergindo, no topo do platô de rocha musgosa e solo pobre, recebendo como de súbito em meus olhos a prateada luz do luar a substituir o orbe moribundo do dia, nada vi que pudesse conter uma centelha de vida. Permaneci por algum tempo parado naquele platô a reparar nos mínimos detalhes, seja de minha ascendência por entre a fissura ou ao meu redor, com um ruído surdo a perturbar meus ouvidos, tendo somente a sensação peculiar de que havia qualquer coisa abaixo de mim, lá entre os sussurrantes vestígios do pântano pestilento recém abandonado.

            Cansado de ficar parado, pus-me vagarosamente a caminhar por uma certa distância, na qual, ao longo dela, nada era visto senão pequenos fogos-fátuos aqui e ali, como se n’um lugar insalubre, além do solo pobre que parecia estender-se desde o topo do platô. Dentro em pouco me deparei com trilhos enferrujados que logo observei pertencerem a uma ferrovia de rua. Placas comidas por cupins ainda seguravam o trole em boas condições, então sempre deduzo haver ali vida em opulência, embora esconsa. Deparo-me diante d’um carro amarelo de vestíbulos de número 1852, e tenho a sensação de conhecê-los, tanto por já tê-los visto algures (em sonhos sempre repetidos) ou ainda por conhecê-los por serem de um tipo de dois vagões comum entre 1900 e 1910. Isso desperta em mim uma sensação egoísta, admito. Talvez por reconhecer as datas como já tendo sido vividas, uma vez que na última oportunidade vi-me a 24 de novembro de 1927. Mas datas é um engodo. Afinal, nem sei em qual tempo vivo: dois mil e quanto já não faz mais diferença, é tudo repetição.

            O vagão não parecia tinir, mas emprestava a impressão de que partiria dentro em pouco. A carretilha de metal prestes a transmitir energia ao trólebus, o freio aéreo pulsando abaixo do chão, dentro dele coloco meus pés ingênuos e muito curiosos, mãos à procura vã de interruptor de luz. Não há nem cabineiro muito menos motoreiro. Vazio. Vazio e silêncio como meus companheiros. Sento n’um dos bancos (sempre o mesmo) e fico a observar qualquer movimento. Geralmente olho para aquela direção, mas nem sempre me deparo imediatamente com o horror. Mas quando ele chega, ouço-o, na verdade. E quando ouço um farfalhar na grama esparsa à esquerda intumesço-me d’um novo pavor: formas escuras de dois homens caminhando ao luar.

            Cabineiro e motoreiro. O primeiro a fungar com presteza singular e uivar em reverência à Lua, e o segundo a cair de quatro de modo a facilitar sua corrida em direção ao carro. Meu coração saindo boca afora ao vê-los ali, tão próximos, prestes a me pegar! Não titubeei e pus-me a correr amalucado para fora daquele vagonete duvidando que naquelas cabeças boinas coubessem. Afinal, um simples cone branco com um tentáculo avermelhado por sangue eram suas faces, e na corrida, na única olhadela para trás, a do motorneiro me afigurava tão nítida que parecia me perscrutar por entre a distância e meu horror causador da disparada.

            Seria a reza a culpada por meu encontro com o habitante deste terrível mundo onírico? Não existe paz na passagem. Disso consciente, desagradável ainda me é. E minha caminhada sem rumo pelos solitários paludes desde a aurora mantinha firme a insana vontade do despertar. E sempre fracassando, ao cair da noite e abrir caminho por entre juncos, vejo à minha frente o antigo bonde; sinto o hediondo recomeçar: a maldita coisa de cabeça-cone uivava à Lua cuja luz derramava assustadora e prateada.

            A noite sempre me leva àquele lugar de horror. Penso que a quietude, à guisa de meus sonhos, seja a forma com a qual eu possa evitá-los, mas me parece que sou acometido d’um sonambulismo ímpar e, depois de ter passado por entre o pântano e subido a fissura, deparo-me novamente próximo das criaturas e ponho-me a correr feito louco. Deliro com isso. Uma pressão iníqua já vem tomando posse; e meu desejo de despertar quase se realiza quando, raras vezes, as luzes engasgam novamente diante de mim. Tola impressão; é somente um novo reiniciar multifário. Quando despertarei?

            Questiono-me se meu amigo teria ido ou não até mim à Rua College 66. Qual bênção o teria atinado? Não sei. Mas não paro de pensar: tenho muito medo do que ele possa ter encontrado.

 

 

FIM

 

 



[1] Despertar, em Latim. 

Crie um site gratuito com o Yola